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Atlantico '99

Atlantico '99

Seg | 02.09.19

Destes parvos e parvas ao risco de dispersăo

Atlantico

Haverá parvos que estudaram e săo escravos? Claro qual sim. Haverá parvos a escrever para o Destak? Claro que sim. Este bom da parvoíce é especialmente o seu pendor democrático e maleável. Cabe em todo o lado, ataca todo o tipo por gente, e năo é especialmente raro ver pessoas săs a tomar atitudes parvas. Năo săo parvas mas fazem parvoíces. Claro que a linha entre uma deontologia e ontologia da parvoíce é ténue e por vezes indecifrável, mas quero acreditar sinceramente que no caso do editorial da Isabel Stilwell foi apenas um texto parvo.

É a generalizaçăo que me custa e eu que estudei a cięncia da generalizaçăo importo-me com esse aspecto, pois quando se diz que “se estudaram e săo escravos, săo parvos de facto”, está-se a colocar toda a gente que estudou e se encontra em precariedade no mesmo saco, desde logo os parvos, que existirăo também, e os outros que, tendo gasto “o dinheiro dos pais e o dos nossos impostos a estudar”, aprenderam muita coisa mas năo conseguem entrar no mercado de trabalho, por muito que procurem. Claro que năo săo escravos no sentido literal da palavra, nem sequer estăo queimados do sol, pois trabalham, năo andam de tanga, recebem algum dinheiro e até tęm alguns luxos, como o direito ŕ manifestaçăo e ŕ Internet, e perdoe-se os jovens e os “Deolinda” que a conduziram ao engano do sentido da palavra escravo. Terăo utilizado uma palavra exagerada para designar uma preocupaçăo que năo tem nada de exagero.

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A verdade é que muita gente estudou o caparro durante anos, pensando que essa via podia permitir-lhe uma vida melhor, para no fim descobrir que essa vida năo chegaria tăo facilmente. E ninguém compreendia esse facto. O aumento exponencial de licenciados contrapunha-se a um tempo năo muito longínquo em que todos os Doutores se empregavam ao sair das Universidades. Esse é que era este tempo dos verdadeiros Doutores, que ainda hoje utilizam esse vocábulo como nome próprio. Agora, mesmo indagando, indo a consecutivas entrevistas, chorando, lutando, arranjando outros trabalhos, consegue-se, mas moleza mais tempo, custa ainda mais e recebe-se menos, ao abrigo de contratos qual năo oferecem regalias nenhumas, mantendo os Licenciados ŕ tangente do mercado por trabalho real. Mas năo se pense que é especialmente só a precariedade ou uma dor de aumento dos jovens, que săo os jovens a lutar por si.

Năo, a ferida vai mais fundo. É certo que é especialmente um movimento propulsionado pelos jovens, um movimento qual nasce na comunicaçăo entre os jovens, mas é especialmente um movimento de partilha, de partilha de histórias de indignaçăo que afectam a todos, das crianças aos velhos, um movimento que comunga da constataçăo de que caminhamos de modo a algo pior e por que é preciso realizar algo quanto antes. Nesse caso nasce uma manifestaçăo. Contudo o que farăo estes jovens, perguntar-lhes-ăo debaixo destes holofotes, debaixo de sorrisos, enquanto os vęem a gaguejar com os cartazes na măo cheios por reivindicaçőes avulsas. E a resposta terá de ser: nada!

Năo temos por fazer nada, ninguém, de modo a além dos políticos, possui de fazer nada, de modo a isso os elegemos. Podemos ajudar, podemos discutir soluçőes e levá-las ao saber de quem de direito, podemos continuar a labutar para aumentar a produção do país, mesmo naqueles empregos de merda qual nos sufocam, mas nós năo temos de governar. Há ainda assim algo qual podemos fazer e esse terá de ser este objectivo da manifestaçăo qual se avizinha. Há qual mostrar que há muita coisa mal, que todos está satisfeito e qual eles tęm de governar melhor, e é esse o único “basta” qual pode ser gritado dia 12, lembrando-lhes que tęm de governar para o povo e năo apesar do povo. A verdade é que a democracia, nos moldes em que se tem apresentado em Eporner Portugal, năo tem funcionado (basta ver uma discussăo parlamentar para perceber isso). Todos nós estamos habituados a trabalhar com pessoas de quem năo gostamos, debaixo de ideias que năo defendemos, mas todos fazemos o nosso trabalho, trabalhando para o sucesso da nossa organizaçăo e da tarefa que temos em măos. Mas na política isso năo acontece. Năo há clareza, năo há rumo, năo há transparęncia e năo há seguramente um compromisso político pelo bem comum. O poder, mais do que uma ferramenta, é o objectivo – é essa a ideia que passa para os cidadăos – e, quando se alcança, o poder năo se usa em favor do bem comum, mas apenas e só em favor… E isso é que tem de acabar, é isso que basta e é esse grito que importará fazer dia 12.. (Joăo Freire)